Breve histórico

(Esteban Hernández Bermejo & Francisca Herrera-Molina. Banco de Germoplasma Vegetal         Andaluz (Junta de Andalucía) y Universidad de Córdoba, España).

            Os estudos etnobiológicos e etnoecológicos referem-se às pesquisas que investigam os aspectos cognitivos (saberes), ideológicos (visões de mundo) e comportamentais (práticas) de populações humanas em relação aos recursos naturais. De modo geral, a Etnobiologia defende a adoção de modelos de desenvolvimento que respeitem os ambientes das populações locais e reconheçam seus direitos de uso dos recursos e conhecimentos próprios desses ambientes. Pesquisadores e extensionistas vêm desenvolvendo esforços para a manutenção da diversidade biológica e cultural, reconhecendo a necessidade de participação efetiva dessas populações na elaboração de políticas públicas que afetem os ecossistemas dos quais dependem.

       Os pesquisadores associados à Etnobiologia e Etnoecologia devem promover, divulgar e implementar os princípios da “Carta de Belém” (“código de ética” orientado para os etnobiólogos redigido em 1988 durante o I Congresso Internacional de Etnobiologia), além de seguir os fundamentos do “Código de Ética da Sociedade Internacional de Etnobiologia (ISE)”. As principais finalidades dessa entidade consistem em congregar as pessoas interessadas no desenvolvimento dos estudos etnobiológicos e etnoecológicos, incrementar a formação e o reconhecimento profissional como elementos indispensáveis no inventário e estudo do patrimônio natural e cultural brasileiro, dar suporte técnico e estabelecer normas de ética profissional a novos pesquisadores. Em setembro de 1992, Córdoba (Espanha) organizou o Primeiro Congresso Internacional de Etnobotânica, com a participação de mais de 500 pesquisadores e especialistas em diferentes campos: Antropologia, Botânica, Agronomia, Fitoquímica, Genética, Sociologia, História e outras ciências relacionadas à Etnobotânica. O objetivo foi fazer uma profunda reflexão sobre o grau de transferência de espécies úteis e germoplasma, bem como sobre o conhecimento popular e científico de plantas oriundas da viagem do Velho para o Novo Mundo depois de 1492. Após esse primeiro evento, os ICEBs foram realizados a cada quatro ou cinco anos em Mérida (México), Nápoles (Itália), Istambul (Turquia), Bariloche (Argentina) e novamente em Córdoba (Espanha).

              Esses seis eventos revelam um longo caminho, uma estrada marcada por centenas de publicações, teses, livros, projetos, exposições, inventários de conhecimentos tradicionais, etnofloras e até mesmo novos museus e jardins etnobotânicos. Todas essas conquistas constituem elos da mesma cadeia de compromisso que envolve a compilação e proteção dos conhecimentos tradicionais em um trabalho com as comunidades locais e os povos indígenas.

Os ICEBs também têm demonstrado um interesse especial no estudo interdisciplinar dos processos de transferência de germoplasma e do conhecimento tradicional associado, das formas de conservação e melhoria do conhecimento e das consequências para os estilos de vida das sociedades humanas, tradicionais ou não. O último ICEB, que ocorreu em 2014, envolveu mais de 250 participantes de 29 países diferentes, com 188 apresentações orais, 96 pôsteres, 13 simpósios e 5 mesas-redondas. Entre as contribuições mais significativas, pode-se citar: 

  • A visão prospectiva e retrospectiva do Prof. Heywood em sua conferência inaugural acerca da Etnobotânica como uma ciência interdisciplinar em expansão;

  • O papel da agricultura familiar e dos quintais urbanos e suburbanos na conservação da agrobiodiversidade e na estruturação social;

  • A importante função dos mercados na transferência de germoplasma e conhecimento tradicional associado;

  • O papel da culinária e dos hábitos alimentares tradicionais como fonte de conhecimento para a inovação agrícola e como ferramenta no combate à fome e ao déficit de saúde no mundo;

  • Os desafios da Etnobotânica e da Botânica Econômica no marco da mudança global;

  • As novas perspectivas de marketing com produtos após a domesticação e o cultivo de espécies silvestres e a geração de novas culturas a partir da experiência popular;

  • Os avanços na exploração da diversidade de plantas medicinais;

  • A relevância dos documentos históricos na coleção do patrimônio etnobotânico de muitos povos e culturas;

  • Os novos desafios na recuperação de espécies negligenciadas e subutilizadas (NUS) e o papel dos bancos de germoplasma e das redes de conservação nessa missão.

A seguir, apresenta-se um breve histórico dos ICEBs anteriores:

 

• I Congresso Internacional de Etnobotânica

Setembro de 1992, Córdoba, Espanha. Em setembro de 1992, Córdoba organizou e sediou o primeiro Congresso Internacional de Etnobotânica, em que mais de 500 pesquisadores e especialistas de vários campos da ciência, tais como Antropologia, Botânica, Agronomia, Fitoquímica, Genética, Sociologia e História, estiveram envolvidos.

 

• II Congresso Internacional de Etnobotânica

Outubro de 1997, Mérida, Yucatán, México. O segundo evento foi realizado em Mérida, entre 12 e 17 de outubro de 1997, e patrocinado pela Universidade Autônoma de Yucatán e pela Universidade Nacional Autônoma do México. Concentrado principalmente na etnobotânica americana, o congresso teve mais de 400 participantes.

 

• III Congresso Internacional de Etnobotânica

Setembro de 2001, Nápoles, Campânia, Itália. A terceira reunião foi realizada em Nápoles, de 22 a 30 de setembro de 2001, e organizada pelo Jardim Botânico de Nápoles e pela Universidade de Nápoles Federico II, com o lema “Etnobotânica no terceiro milênio”. Essa edição foi afetada pelos eventos de 11 de setembro, de modo que muitos pesquisadores americanos não puderam comparecer. Apesar disso, reuniram-se mais de 250 congressistas.

 

• IV Congresso Internacional de Etnobotânica

Agosto de 2005, Istambul, Turquia. O quarto evento aconteceu em Istambul e contou com mais de 300 participantes de cerca de 45 países (com pouca representação dos países da América do Sul). Mais de 100 apresentações orais foram realizadas em 11 simpósios e 220 pôsteres. Houve, também, duas exposições e duas oficinas. O tema desse congresso, “Etnobotânica: na conjunção de continentes e disciplinas”, foi escolhido para destacar a localização estratégica da Etnobotânica entre diferentes disciplinas, sistemas de conhecimento, culturas e regiões.

 

• V Congresso Internacional de Etnobotânica

Setembro de 2009, Bariloche, Argentina. O quinto encontro foi realizado em Bariloche, entre 21 e 24 de setembro de 2009, reunindo cerca de 500 participantes, com grande presença de etnobotânicos latino-americanos e representantes de outras áreas do conhecimento advindos do Hemisfério Sul. O lema do ICEB 2009 foi “Tradição e transformações na Etnobotânica”, referindo-se à natureza dinâmica e adaptativa do conhecimento botânico tradicional e à importância da Etnobotânica na preservação desse conhecimento, valorizado por diferentes comunidades.

 

• VI Congresso Internacional de Etnobotânica

Novembro de 2014, Córdoba, Espanha. Esse evento apresentava como objetivo central recapitular o itinerário seguido pelos encontros anteriores, que deixaram um rastro de interação e conhecimento mútuo entre etnobotânicos e especialistas em ciências afins em todo o mundo. Na ocasião, reuniram-se por volta de 250 participantes.